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Bar do Gordo: Por dez anos, o peixe mais gostoso do Subúrbio

De 1986 até meados de 1996, um bar paradisíaco em frente à estação de trem de Itacaranha abrigou os peixes fritos mais deliciosos de todo o Subúrbio Ferroviário. Seu Wilson Rodrigues, ex-marinheiro e mecânico aposentado da Leste do Brasil após um acidente, resolveu abrir o estabelecimento para oferecer aos amigos e clientes o melhor da cavala, do peixe-galo e da anchova.

O acompanhamento era um espetáculo à parte: uma farofinha feita no óleo do peixe e um molho lambão com tomates frescos que ninguém conseguia imitar. Nem mesmo sua esposa, Dona Josefa Vitorina — a querida Dona Zefa —, conseguiu descobrir o segredo do tempero que Gordo jurava ser apenas sal. Wilson conheceu a esposa em Camaçari e a levou para Itacaranha, que se tornou o seu verdadeiro paraíso.

Tudo ali era especial e sensorial. Os clientes ouviam o estalar do peixe na fritura misturado ao barulho do trem parando na estação, a menos de cinco metros do bar. Ao desembarcarem, o som inesquecível das imensas catracas de ferro girando completava a atmosfera mágica do local.

Mas o ponto alto eram as “resenhas” de Gordo, apelido carinhoso em menção à sua barriga avantajada. Com Dona Zefa, ele teve a pequena Siane e o garoto Celso (que aparece na foto). Além deles, Gordo teve outros seis filhos — um homem e cinco mulheres —, formando uma família tão gigante quanto o seu coração.

No início, a rua não tinha asfalto, e o chão do bar era de areia da praia, cercado por muitas plantas. As crianças adoravam o ambiente, os refrigerantes, a água de coco e o peixe preparado apenas com o filé, quase sem espinhas.

É uma pena que eu tenha me tornado jornalista apenas após a partida desse mestre da cozinha, mecânico, marinheiro e grande amigo. Ele nos deixou em outubro de 1996, sem sequer chegar à terceira idade. Faleceu aos 56 anos, em um sábado, após preparar um cozido. Dizia que não pararia de comer o que gostava, e assim o fez até o fim. Sua companheira, Dona Zefa, partiu logo depois, também muito jovem, aos 53 anos.

Quase 30 anos após a partida do “Velho Gordo”, visitei o local. Não esperava encontrar o bar ou o peixe, mas buscava recordações — e as encontrei. Conversei com sua filha, Siane, relembramos amigos em comum e histórias marcantes. Esta é uma singela homenagem a esse homem que fez parte da vida de tanta gente.

Obrigado, seu danado! Mas bem que você poderia ter nos contado o “pulo do gato” daquele tempero.