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Geisa: uma história de luta, resiliência e raízes no Subúrbio

Há pessoas cuja trajetória não pode ser contada apenas pelos cargos que ocuparam, pelos diplomas que conquistaram ou pelo lugar onde chegaram.

Para compreender verdadeiramente algumas histórias, é preciso voltar ao começo.

Voltar às raízes.

E, para contar a história de Geisa Ramos Barreto, é preciso olhar para uma caminhada marcada por família, educação, trabalho, perdas, pertencimento e, sobretudo, resiliência.

Geisa nasceu em 22 de setembro de 1979, no Cabula, no Conjunto Chácara do Cabula. Filha de Paulo Barreto e Anilda Ramos, cresceu carregando também fortes vínculos familiares com o Subúrbio de Salvador, especialmente com Plataforma.

Era uma menina pacata, estudiosa e determinada.

Estudou no Colégio Senhor do Bonfim, nos Barris, e desde cedo começou a construir através da educação uma ponte entre a realidade que conhecia e o futuro que desejava alcançar.

Porque, para muita gente que nasce longe dos espaços de privilégio, estudar nunca foi simplesmente cumprir uma etapa da vida.

Estudar também é resistir.

É acreditar que existem outros caminhos.

É olhar para as dificuldades e decidir que elas não terão a palavra final.

O CEP é o começo, não o destino

Durante muito tempo, moradores das periferias e do Subúrbio de Salvador conviveram com uma espécie de sentença silenciosa.

O endereço muitas vezes chegava antes da pessoa.

O CEP parecia dizer onde alguém poderia trabalhar, estudar, circular e até onde poderia sonhar.

Geisa decidiu escrever outra história.

Suas raízes suburbanas não foram transformadas em vergonha ou esquecidas conforme novas oportunidades surgiram. Pelo contrário: pertencimento, memória e valorização das próprias origens permaneceram presentes em sua caminhada.

E foi através dos estudos que muitas portas começaram a se abrir.

Geisa formou-se em Economia e, posteriormente, em Direito.

Dois diplomas que representam muito mais do que títulos pendurados na parede.

Representam horas de estudo, renúncias, escolhas e a decisão de continuar avançando.

Sua trajetória profissional passou por diferentes espaços, incluindo Assembleia Legislativa, Câmara Municipal e Secretaria de Educação.

A menina estudiosa cresceu e passou a ocupar ambientes que, para tantas meninas vindas de famílias populares, durante muito tempo pareceram distantes.

Mas chegar nunca significou esquecer de onde veio.

Trabalho, família e resistência

A vida, entretanto, não acontece apenas dentro das salas de aula ou dos ambientes profissionais.

Enquanto construía sua carreira, Geisa também construía uma família.

Ao lado de Rogério, com quem compartilha uma história de três décadas, vieram os filhos Matheus, o mais velho, e Antônio, o caçula.

E talvez uma das maiores dimensões de sua trajetória esteja justamente nisso: conciliar os muitos papéis que a vida lhe apresentou.

Mulher.

Mãe.

Esposa.

Estudante.

Profissional.

E, acima de qualquer título, alguém que precisou aprender a continuar caminhando mesmo quando a vida pesava.

Porque nenhuma trajetória de superação é uma linha reta.

Existem tropeços.

Existem dias de dúvida.

Existem perdas.

Existem momentos em que a força parece faltar.

Resiliência não significa nunca cair.

Significa encontrar motivos para levantar.

A ausência que continua presente

Entre todas as marcas carregadas por Geisa, existe uma que diploma nenhum consegue explicar.

A ausência de sua mãe, Anilda Ramos.

Perder uma mãe reorganiza a vida de um jeito difícil de colocar em palavras.

Algumas conquistas passam a ser acompanhadas por uma vontade silenciosa:

“Como seria bom se ela estivesse aqui para ver tudo isso…”

Anilda já não está fisicamente ao lado da filha.

Mas permanece.

Permanece na educação que deixou.

Nos valores transmitidos.

Na mulher que Geisa se tornou.

Na família que construiu.

E nos ensinamentos que agora atravessam outra geração através de Matheus e Antônio.

Talvez exista aí uma das formas mais bonitas de eternidade: quando alguém parte, mas continua existindo naquilo que ensinou aos que ficaram.

Uma fiel escudeira no caminho

Nenhuma trajetória profissional é construída completamente sozinha.

Ao longo do caminho surgem pessoas que testemunham de perto as dificuldades, as mudanças e as conquistas.

Há mais de dez anos, uma dessas pessoas acompanha Geisa: Jhenifer Copque.

Administradora e profissional da Educação há pelo menos 12 anos, com passagem pela GRE Subúrbio 1 e pelo Centro, Jhenifer conhece de perto a rotina e a forma de trabalhar de Geisa.

Depois de mais de uma década de convivência profissional, ela resume:

“Trabalhar com ela é um aprendizado constante. Eles são referência.”

Mais do que uma colega de trabalho, Jhenifer tornou-se uma fiel escudeira.

E dez anos não são dez dias.

São anos compartilhando responsabilidades, dificuldades, mudanças, conquistas e desafios.

Tempo suficiente para que uma relação profissional seja transformada também em confiança e lealdade.

A menina cresceu

Aquela menina pacata e estudiosa cresceu.

Estudou.

Formou-se.

Construiu uma carreira.

Formou sua família.

Tornou-se mãe.

Enfrentou perdas.

Continuou trabalhando.

Continuou estudando.

Continuou caminhando.

E ainda encontrou espaço para cuidar de si. Hoje, a atividade física tornou-se uma de suas paixões — e Geisa virou, na brincadeira da família, uma verdadeira “musa fit”.

Mas talvez a parte mais bonita de sua história não esteja em nenhum cargo, diploma ou conquista material.

Está na caminhada.

Porque quando observamos alguém depois que muitas batalhas já foram vencidas, existe o risco de enxergarmos apenas o resultado.

Não vemos as noites difíceis.

Não vemos as renúncias.

Não vemos as lágrimas.

Não vemos quantas vezes aquela pessoa precisou respirar fundo e continuar.

Por isso é necessário voltar às raízes para compreender Geisa.

Voltar à menina.

À estudante.

À filha de Paulo e Anilda.

À mulher ligada ao Subúrbio.

À mãe de Matheus e Antônio.

À profissional que encontrou na educação e no trabalho instrumentos para construir sua própria trajetória.

O endereço onde começamos pode fazer parte da nossa identidade.

Mas não precisa estabelecer os limites dos nossos sonhos.

Geisa é resultado das suas escolhas, das oportunidades que conquistou, das pessoas que caminharam ao seu lado e, principalmente, da capacidade de não permitir que as dificuldades escrevessem sozinhas o final de sua história.

Sua trajetória fala de origem, educação, família, trabalho, pertencimento e resistência.

Fala de uma mulher que avançou sem precisar apagar suas raízes.

Uma história ligada ao Subúrbio.

Uma história de luta.

Uma história de resiliência.

E, acima de tudo, uma história que inspira.