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Indicação sem Jabá | Restaurante do Índio | A comida que alimenta uma história de amor

Antes de ser conhecido pela feijoada que paralisa os sábados do Subúrbio, Edivaldo Nascimento era apenas um jovem que saiu de Belmonte, no extremo sul da Bahia, carregando uma mala simples e uma vontade imensa de vencer. Chegou a Salvador entre o fim dos anos 1980 e o começo dos anos 1990. Trazia a saudade apertada no peito, o sotaque do sul e a coragem de quem precisava construir uma vida nova do zero.

Foi no açougue de Beto e dona Ana que ele encontrou acolhimento, teto e a chance de aprender uma profissão. Índio, como passou a ser carinhosamente chamado, agarrou a oportunidade com unhas, dentes e coração. Até hoje fala dos antigos patrões com os olhos marejados de gratidão. Tornou-se um açougueiro de mão cheia: conhece a anatomia do corte, escolhe a peça perfeita só pelo olhar e tem a destreza rara de desossar um boi inteiro sozinho.

Mas o destino — esse mestre em traçar caminhos — guardava para ele, nas prateleiras e balcões da vida, um encontro infinitamente maior.

Foi no cotidiano de Periperi que os passos dele cruzaram com os de Jucilene, a Ju. Moradora de Mirantes de Periperi, ela descia para comprar carne no balcão onde Índio trabalhava — e, quem sabe, para ver mais uma vez aquele moreno de cabelo liso, atencioso, que a atendia com um cuidado diferente de todos os outros. Entre um corte de carne, uma conversa tímida e um olhar de soslaio, nasceu uma história de amor daquelas que a gente só vê em livro. Os dois uniram as vidas, construíram uma família sólida e abençoada e tiveram João.

A caminhada de Ju é um capítulo à parte de pura força e abnegação. Hoje, ela se desdobra em jornadas duplas que desafiam o relógio: divide a rotina exigente de plantões em um renomado hospital de Salvador com a dedicação incansável ao restaurante ao lado do marido. Troca o jaleco branco da saúde pela avental da cozinha tradicional, põe a mão na massa e ajuda a transformar temperos simples em pratos carregados de alento. Quem chega à mesa e fecha os olhos no primeiro pedaço talvez nem saiba dizer se foi Índio ou Ju quem preparou a refeição. Sabe apenas que ali existe uma sinfonia perfeita de dedicação. Índio acorda quando a cidade ainda dorme, escolhe pessoalmente cada ingrediente nas feiras e faz questão de acompanhar cada panela de perto.

Eu conheço esse sabor e esse abraço em forma de prato há cerca de dez anos. Hoje pela manhã, voltei com minha família para cumprir esse ritual sagrado da feijoada: eu, Priscila, Malu e Afonsinho. Fiz questão de contar isso porque meus filhos chegaram àquela mesa ainda bebês de colo, engatinhando. Comeram aquela comida amassadinha na hora, preparada com a mesma pureza e higidez que a gente dedica a quem ama dentro da própria casa. Digo isso para revelar a confiança absoluta que temos naquela cozinha, mas também para fazer uma provocação sincera a você que lê: venha livre de qualquer preconceito ou amarração. Desarme o coração, esqueça o relógio e mergulhe de cabeça na alma e no sabor dessas panelas.

É por isso que o Restaurante do Índio não é apenas mais um lugar no nosso Indicação sem Jabá. É por isso que a história de Índio e Ju merece estar gravada em letras garrafais no nosso Histórias que Inspiram. Não vou medir a trajetória deles por métricas frias ou conquistas materiais. O que me faz lacrimejar é ver dois trabalhadores braçais, dois gigantes da vida real, que seguem, dia após dia, sol a sol, realizando seus sonhos juntos — e abrindo as portas para acolher outras famílias em torno do seu sagrado alimento.

Além de tudo, Índio carrega uma nobreza silenciosa que poucos conhecem. É um homem de gestos grandiosos e poucas palavras, daqueles que ajudam dezenas de pessoas no anonimato, sem alarde, estendendo a mão a quem precisa. E tem uma peculiaridade bonita e genuína: fica verdadeiramente chateado quando descobrem suas caridades, porque para ele a mão esquerda jamais deve saber o que a direita fez.

Cozinheiro e homem reservado, em tantos anos de convivência poucas vezes o vi de cara fechada. Mas sei onde moram suas dores e suas alegrias. Sei que a deslealdade o entristece profundamente e que a lembrança dolorosa do filho mais velho, que partiu precocemente para o câncer, ainda é uma ferida que sangra em silêncio. Mas também conheço de cor o sorriso largo e luminoso que aparece quando ele e Ju conseguem finalmente esticar as pernas e descansar depois de um dia exaustivo, sentados na calçada de casa ouvindo o arrocha de Pablo, ou quando arrumam as malas com entusiasmo para rever os parentes e velhos amigos no extremo sul da Bahia.

A vida deles é feita dessa tessitura densa: tem trabalho duro, suor, saudade, perdas irreparáveis e recomeços diários. Tem, sobretudo, um amor visceral que contamina tudo ao redor. E talvez seja exatamente esse tempero invisível que a gente sinta na alma antes mesmo de dar a primeira garfada.

Há a feijoada mágica de sábado, o cozido substancioso de segunda, a quiabada aveludada de quinta e a moqueca perfumada de sexta. Tem o melhor da gastronomia baiana, porção de peixe frito crocante e um ensopado de boi com aquela carne tão macia que se desfaz ao simples toque do garfo. Mas, para mim, o ingrediente que nos faz voltar há uma década não cabe em nenhum livro de receitas: é o afeto puro.

O Restaurante do Índio fica no número 66 da Rua Monteiro Lobato. Um conselho de amigo: chegue cedo. A comida acaba rápido. É sério, acaba mesmo — porque amor de verdade quando é servido, todo mundo quer um pouco.