Professor, psicólogo e palhaço: as identidades de uma cria que o Subúrbio ajudou a formar
Ele desembarcou na Bahia de mala e cuia. Hospedou-se inicialmente em um hotel na Calçada e, pouco depois, o destino tratou de aproximá-lo daquele que seria um dos grandes fios condutores de sua vida: a educação.
Filho de educadora, Paulo Claudino chegou a morar dentro da extinta Fabrica SAMBRA, parede e meia com a Escola Municipal Climério de Oliveira, no Lobato. Talvez a vida já estivesse dando pistas do caminho que ele seguiria. Mas Paulo, como bom teimoso, ainda tentou contrariar o roteiro. Enveredou pelo curso técnico em Eletrotécnica, insistiu por algum tempo, até compreender que seu chamado estava em outro lugar. Educar e cuidar de gente já estavam escritos em sua caminhada.
Como coordenador pedagógico da rede municipal, formou uma dupla daquelas que deixam saudade ao lado do diretor Jesus, na extinta Escola Municipal Cônego Orlando Teles. Por ali passaram dezenas de meninos do nosso Subúrbio. Garotos que encontraram em Paulo muito mais que um profissional da educação: encontraram orientação, cuidado, conselho e, muitas vezes, aquele olhar atento de quem percebe que por trás de uma travessura existe uma criança precisando ser ouvida.
Durante o dia, encarava a missão — nem sempre fácil — de educar, orientar e proteger nossos garotos. Mas Paulo guardava uma identidade secreta.
Primeiro veio a música, como cantor de coral. Depois, surgiu aquele que transformaria a sensibilidade de Paulo em gargalhadas: o fantástico palhaço Paçoca.
E Paçoca não escolheu apenas os lugares onde a alegria já estava presente. Foi justamente onde havia medo, dor, solidão ou necessidade de acolhimento que seu nariz vermelho ganhou ainda mais sentido. Hospitais, creches, escolas e praças viraram palco. Durante a pandemia, quando abraçar tornou-se impossível e tanta gente precisou aprender a conviver com a distância, ele atravessou as telas das lives para continuar distribuindo aquilo que sempre carregou consigo: alegria.
Porque fazer alguém sorrir quando tudo vai bem é relativamente fácil. Arrancar um sorriso de quem atravessa um momento difícil é outra história. É cuidado. É afeto. É humanidade.
Calmo, sereno, boa praça e amigo para todas as horas, Paulo ainda encontrou, no meio dessa imensidão de personagens e responsabilidades, força e determinação para concluir a graduação em Psicologia.
E talvez aí as suas diferentes identidades tenham finalmente se encontrado.
O educador que aprendeu a orientar. O artista que descobriu o poder do sorriso. O palhaço que percebeu que uma gargalhada também pode acolher. E o psicólogo que escolheu transformar conhecimento, escuta e sensibilidade em instrumentos para cuidar de gente.
No fim das contas, talvez nunca tenham existido identidades secretas. Professor, psicólogo e palhaço sempre foram diferentes maneiras de Paulo Claudino exercer a mesma vocação: olhar para o outro.
Paulo é uma dessas almas que tiveram o privilégio de conviver conosco aqui no Subúrbio Ferroviário de Salvador. Uma cria que ajudou a cuidar de outras crias, deixando um pouco de si em cada menino orientado, em cada família acolhida e em cada sorriso provocado pelo Paçoca.
Hoje, seus caminhos ultrapassaram as fronteiras do nosso Subúrbio. E está tudo bem.
Seria até egoísmo querer guardá-lo somente para nós.
Paulo agora é cidadão do mundo. Porque uma alma leve, generosa e acolhedora assim não nasceu para pertencer a um único lugar. Nasceu para cuidar de gente — onde quer que exista gente precisando de cuidado, orientação ou simplesmente de um bom motivo para sorrir.
SOTEROSUBURBANO — O SUBÚRBIO QUE DÁ CERTO.

