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Do “Corre ou Morre” à universidade e à literatura: a história de Valter Sales

Ele decidiu caminhar na contramão das estatísticas.

Valter Sales cresceu convivendo de perto com a violência, a desigualdade social e, sobretudo, com o peso de um endereço que durante muito tempo pareceu carregar uma sentença. A Rua do Amparo, no Lobato, chegou a ser conhecida por um apelido que dizia muito sobre a realidade enfrentada por seus moradores: “Corre ou Morre”.

Mas o Amparo é muito maior que qualquer estigma.

É território de gente trabalhadora, de famílias, de resistência, de cultura e de uma história que ultrapassa as fronteiras do Subúrbio Ferroviário. A região também está ligada à memória da exploração de petróleo no Brasil e recebeu, ao longo de sua história, autoridades nacionais.

Foi nesse chão que Valter aprendeu uma das lições mais importantes de sua vida: o CEP pode dizer de onde você veio, mas jamais pode determinar até onde você chegará.

Entre dificuldades, preconceitos e portas que pareciam fechadas, ele buscou força. Respirou fundo. Seguiu em frente. E, amparado também pela ancestralidade e pela espiritualidade que fazem parte de sua caminhada, lutou como quem sabe que desistir não pode ser a única alternativa.

A educação apareceu como uma possibilidade de transformação.

E Valter agarrou essa possibilidade.

Quem acompanhou parte dessa caminhada foi a professora Helena Vidreira, educadora que dedicou a vida ao ensino no Subúrbio Ferroviário. Ao falar sobre o antigo aluno, ela resumiu, emocionada, dois momentos que ficaram guardados em sua memória:

“Esse garoto me emocionou duas vezes na minha vida: primeiro, quando venceu a barreira do vestibular e chegou à UNEB. Agora, por lembrar da professora da escola do bairro e me convidar para o lançamento do seu livro.”

E concluiu com a simplicidade de quem conhece o tamanho daquela trajetória:

“Ele é um vencedor.”

Talvez essa seja uma das maiores conquistas de Valter Sales.

Não apenas chegar à universidade. Não apenas escrever e lançar um livro. Mas chegar lá sem esquecer quem esteve no começo da caminhada.

O menino da Rua do Amparo voltou para procurar a professora.

O estudante virou universitário.

O universitário tornou-se autor.

E aquele território que tantas vezes apareceu associado às estatísticas da violência agora também pode ser apresentado por outra narrativa: a de um filho do Subúrbio que escreve a própria história e transforma memória, ancestralidade e vivência em literatura.

Seu livro, “Mão de Pilão”, carrega muito mais do que palavras impressas. Carrega pertencimento. Carrega identidade. Carrega a força de quem conhece o lugar de onde veio e não sente vergonha de apontar para ele.

Por isso, quando o SoteroSuburbano diz “O Subúrbio que deu certo”, não estamos falando de esquecer nossas dificuldades ou esconder nossos problemas.

Estamos falando de mostrar que nossas comunidades também produzem professores, escritores, universitários, artistas, trabalhadores, intelectuais e vencedores.

Valter Sales é uma dessas histórias.

Da Rua do Amparo para a universidade.
Da universidade para a literatura.
Da literatura de volta para sua comunidade.

Porque vencer é importante.

Mas vencer sem esquecer de onde veio é ainda maior.

📚 Em breve, entrevista com Valter Sales, autor de “Mão de Pilão”, no SoteroSuburbano.

SoteroSuburbano — o Subúrbio que deu certo.