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ARIANE BASTOS: DA PORTA DE CASA PARA OS PALCOS, SEM ESQUECER DE ONDE VEIO

Nascida e criada no Lobato, cantora transformou uma roda despretensiosa entre amigos no Sambari e hoje carrega na voz a força da mulher negra, periférica e sambista que aprendeu música ouvindo, observando e experimentando

Tem gente que aprende música na escola. Tem gente que encontra a música dentro de casa, na rua, na vizinhança, no batuque improvisado e naquela curiosidade quase infantil de descobrir onde colocar os dedos para fazer nascer uma nota.

A história de Ariane Bastos tem muito disso.

Aos 31 anos, nascida e criada no Lobato, no Subúrbio Ferroviário de Salvador, Ariane fala de si usando palavras que ajudam a explicar também a artista que se tornou: forte, persistente, amiga, verdadeira e, acima de tudo, ligada à família.

Filha de seu Otoniel e dona Maria, comerciante conhecida na Rua da Estação, e irmã de Paulo Antônio e Ana Paula, Ariane cresceu experimentando aquilo que o Subúrbio ensina antes mesmo de qualquer sala de aula: humildade, convivência, troca, amizade e a capacidade de aprender a lidar com as dificuldades da vida.

A música sempre esteve por perto. O curioso é que, mesmo olhando para trás e percebendo tantos sinais, Ariane diz que foi praticamente pega de surpresa por ela.

Autodidata, pediu primeiro um violão e depois um cavaquinho à mãe. Foi mexendo, experimentando, procurando notas e descobrindo os instrumentos. Não havia um grande projeto. Havia curiosidade, vontade e música.

Até que uma simples roda entre amigos começou a se repetir.

Primeiro, de vez em quando. Depois, uma vez por mês. Vieram mais pessoas, mais encontros, mais samba. Aquilo que havia começado sem maiores pretensões cresceu e, como ela própria conta, virou uma verdadeira febre.

Nascia ali o Sambari, que hoje, na definição carinhosa de Ariane, já é uma “criança de quatro aninhos”.

Do Lobato para outros palcos, aquela menina que aprendia música praticamente sozinha começou a viver momentos que talvez jamais tivesse imaginado. Entre eles, dividir apresentações com artistas como Léo Santana e Alexandre Pires.

Mas nenhum palco parece ter sido grande o suficiente para fazê-la esquecer a calçada de onde saiu.

Ariane continua falando da rua, dos amigos, da família e do bairro com o mesmo sorriso que leva para o palco.

E esse sorriso não passa despercebido.

O amigo e admirador Alisson Pimentel resume Ariane em três palavras:

“Humildade, felicidade e persistência.”

E acrescenta:

“Quando ela canta, me traz alegria, até porque ela canta sorrindo.”

Para a produtora cultural Sheila Batista, a relação entre Ariane, sua música e suas origens vai ainda mais fundo:

“Ouvir Ariane é sentir o gosto e a emoção de estar em casa. Ari cantando, a gente não só escuta, a gente sente. Fico muito feliz quando ouço ela, porque sei o quanto ela ama fazer isso e o quanto a música faz parte dela.”

É justamente sobre música, pertencimento, preconceito, sonhos, família e a força de continuar que Ariane Bastos conversa com o Soterosuburbano.


Soterosuburbano — Quem é Ariane Bastos quando o palco se apaga e fica apenas a mulher por trás da sambista?

Ariane Bastos — Sou uma mulher forte, persistente, amiga, verdadeira e muito família. Tenho 31 anos, sou nascida e criada no Lobato, filha de seu Otoniel e dona Maria e irmã de Paulo Antônio e Ana Paula. Minha família é minha base. Sou uma pessoa simples, que valoriza muito as amizades, a vizinhança e as relações que construí ao longo da vida.

Soterosuburbano — Onde o Subúrbio e a periferia entram na sua história e na construção da artista que você é hoje?

Ariane — Entram em tudo. Nasci e fui criada no Lobato. Viver no Subúrbio me ensinou muito sobre humildade, convivência, troca com a vizinhança e até sobre como lidar com determinadas situações da vida. A periferia ensina muita coisa para a gente. Minha escola é o samba e o pagode de rua. Eu comecei na rua, na porta de casa. Então, não tem como separar Ariane artista da Ariane do Lobato.

Soterosuburbano — Quando você percebeu que o samba não seria apenas diversão, mas parte importante da sua vida?

Ariane — A música sempre esteve presente na minha vida, mas posso dizer que fui pega de surpresa. Sempre fui muito curiosa e acabei me tornando uma musicista autodidata. Na família, somente um tio tinha esse dom musical mais evidente. Pedi um violão à minha mãe, depois um cavaquinho, e fui aprendendo, tirando minhas notas e descobrindo os instrumentos.

Até que surgiu uma roda de amigos, sem nenhuma grande pretensão. A roda começou a se repetir, primeiro uma vez por mês, depois foi crescendo e virou uma febre. Foi assim que nasceu o Sambari. Hoje, nosso Sambari já tem quatro aninhos. (risos)

Soterosuburbano — Ser mulher negra e sambista ainda significa precisar derrubar portas para conquistar espaço na música?

Ariane — Sim. Ser mulher, por si só, já representa muitos desafios no dia a dia. Quando você é mulher, negra, sambista e ainda LGBT, principalmente no mundo da arte, acaba encontrando sempre uma barreira a mais. É difícil. Mas eu estou persistindo. Continuo trabalhando, cantando e acreditando.

Soterosuburbano — Qual foi o momento mais difícil da sua caminhada e o que fez você não desistir?

Ariane — A própria caminhada traz dificuldades. São barreiras que aparecem justamente por ser quem eu sou e por ocupar os espaços que busco ocupar. O que me faz continuar é essa persistência, o apoio das pessoas e perceber que as oportunidades estão aparecendo.

Hoje, a internet também ajuda muito. Ela criou possibilidades para que o nosso trabalho saia da periferia e alcance outros lugares.

Soterosuburbano — O que existe no samba da periferia que muitas vezes não chega aos grandes palcos e à grande mídia?

Ariane — Existe verdade. Existe a vivência da rua, da comunidade, das pessoas. Eu comecei literalmente na porta da minha casa. Minha escola é o samba e o pagode de rua. Acho que essa essência precisa ser cada vez mais vista.

Hoje, com a internet, a gente consegue mostrar mais o samba produzido na periferia e fazer com que ele alcance pessoas que talvez antes não tivessem acesso ao nosso trabalho.

Soterosuburbano — Existe uma apresentação que marcou sua vida e fez você pensar: “É isso que eu quero para mim”?

Ariane — Cantar com Léo Santana e com Alexandre Pires me marcou muito. Foram apresentações importantes para a minha carreira.

No caso de Léo, existe ainda uma questão afetiva muito forte. Ele sempre foi um ídolo para mim. Quem me conhece sabe que sou pagodeira. Sempre acompanhei muito o trabalho dele e também a história de vida dele. Eu ia às festas, era fã mesmo.

Então, anos depois, cantar com uma pessoa que você admirava, ver esse artista reconhecer você e chamar você pelo nome… é surreal.

Soterosuburbano — E o que representa cantar ao lado de artistas que um dia você acompanhou como fã?

Ariane — É algo difícil até de explicar. São momentos que mostram que vale a pena continuar acreditando. Você olha para trás, lembra de onde começou, das rodas, da porta de casa, de tudo o que enfrentou, e percebe que está conquistando espaços que antes pareciam muito distantes.

É uma mistura de felicidade, gratidão e também de responsabilidade para continuar trabalhando e buscando coisas maiores.

Soterosuburbano — Quem são as mulheres e os artistas que ajudaram a formar a identidade musical de Ariane Bastos?

Ariane — Minha identidade vem muito dessa música que vivi e ouvi durante toda a minha caminhada. Sou pagodeira, tenho essa influência muito forte, mas também tenho o samba de rua como minha grande escola.

As referências acabam se misturando com aquilo que vivi dentro de casa, na comunidade, nas rodas e nos palcos. Tudo isso foi construindo a artista que sou hoje.

Alcione, Leci Brandão, Beth Carvalho, Ludmila no cenário atual, e a galera de Salvador, Lila, Amanda Amado, Mávila, são elas que nos ajydam a não desistir do que a gente quer.

Soterosuburbano — Se pudesse usar sua voz para mandar um recado às meninas negras da periferia que sonham em viver de música, o que diria?

Ariane — Eu diria para persistirem. As barreiras existem e, para uma mulher negra da periferia, muitas vezes parecem ainda maiores. Mas hoje também existem ferramentas que não existiam antes.

A internet pode levar nosso trabalho para muito longe. Eu comecei na porta de casa. Então, é preciso acreditar, aprender, aproveitar as oportunidades e não abandonar aquilo que você sonha.

Soterosuburbano — Para terminar: qual é o grande sonho de Ariane Bastos que ainda falta transformar em realidade?

Ariane — Quero continuar crescendo com a minha música, levando o Sambari e aquilo que construímos para cada vez mais pessoas e lugares. Quero viver novas oportunidades, alcançar novos palcos e continuar representando de onde eu vim.

O sonho continua sendo construído.

DA PORTA DE CASA PARA O MUNDO

Talvez a história de Ariane Bastos possa ser resumida por uma imagem muito simples: uma menina do Lobato com um instrumento nas mãos tentando descobrir uma nota.

Não havia manual.

Não havia certeza de carreira.

Muito menos garantia de que, algum dia, aquela curiosidade atravessaria a porta de casa.

Mas atravessou.

A roda entre amigos cresceu. O cavaquinho ganhou companhia. O samba ganhou nome. O Sambari nasceu, completou quatro anos e aquela mulher que começou tocando em sua própria comunidade passou a dividir momentos com artistas que antes admirava como fã.

E, quando alguém pergunta quem é Ariane, talvez seja interessante também ouvir quem está do outro lado do palco.

Continua lá agora, quando os palcos ficaram maiores.

Ariane continua sendo filha de seu Otoniel e dona Maria. Continua sendo irmã de Paulo Antônio e Ana Paula. Continua carregando o Lobato na fala, na memória, na música e na maneira de enxergar o mundo.

E o Lobato entende bem de revelar vozes.

Foi daqui que saiu Léo Santana, que dispensa apresentações. Daqui também surgiram outros talentos, como Lucas Voice. E agora mais um nome vai abrindo seu próprio caminho: Ariane Bastos.

Não se trata de comparar trajetórias. Cada artista escreve sua história de um jeito.

Mas existe algo poderoso quando um território tantas vezes lembrado por suas dificuldades consegue responder apresentando seus artistas, seus músicos, seus trabalhadores e sua gente.

Porque chegar a outros palcos não precisa significar apagar a rua onde tudo começou.

No caso de Ariane, parece acontecer justamente o contrário:

quanto mais longe sua música chega, mais o Lobato viaja junto.

Vai junto dona Maria.

Vai seu Otoniel.

Vão Paulo Antônio e Ana Paula.

Vão os amigos da primeira roda.

Vai o Sambari.

Vai aquela porta de casa onde muita coisa começou.

E vai também cada menina negra da periferia que talvez esteja, neste exato momento, segurando um violão, batucando numa mesa, cantando diante do espelho ou tentando descobrir sua primeira nota sem imaginar onde ela poderá chegar.

Quando Ariane Bastos sobe ao palco carregando a própria história, não é somente uma cantora que ganha o microfone.

É uma mulher negra.

É uma mulher periférica.

É uma sambista.

É uma filha do Lobato.

É um pedaço do Subúrbio dizendo, em alto e bom som:

“Nós estamos aqui.”

Soterosuburbano — O Subúrbio que deu certo.