Saúde

ELAS EM MOVIMENTO: SAÚDE, AUTONOMIA E AUTOESTIMA TRANSFORMAM A VIDA DE CERCA DE 800 MULHERES

Projeto completa quatro anos no Lobato, reúne 17 núcleos e já alcança diferentes localidades do Subúrbio, além de Pirajá e Simões Filho

Conversar com Raimilton de Carvalho, ou simplesmente Ray, como é conhecido, ajuda a compreender a dimensão alcançada pelo projeto Elas em Movimento.

São quatro anos de atuação no Lobato, 17 núcleos espalhados pelo Subúrbio e uma expansão que já chega a Pirajá e Simões Filho. Ao todo, segundo a organização, cerca de 800 mulheres são atendidas pela iniciativa.

Mas os números, apesar de expressivos, contam apenas uma parte dessa história.

Para entender o verdadeiro tamanho do projeto é preciso ouvir quem participa das atividades. São mulheres de diferentes idades que encontraram nas aulas de zumba, hidroginástica e outras ações um espaço de convivência, cuidado com a saúde, fortalecimento da autoestima e construção de autonomia.

AOS 86 ANOS, DONA CLARICE NÃO QUER PARAR

Entre as participantes está Clarice Matos, de 86 anos. A idade não a impede de participar das aulas de zumba e hidroginástica. Pelo contrário: ela conta que sente no próprio corpo os benefícios das atividades.

“Me sinto melhor. Sinto falta quando não posso vir. Depois do projeto não sinto dor nenhuma”, relata.

A disposição de dona Clarice ajuda a mostrar que, no Elas em Movimento, não existe idade para cuidar do corpo, conviver, fazer amizades e se sentir bem.

“ESSE PROJETO NOS DÁ AUTONOMIA”

No núcleo de Pirajá, Janete Borges também fala sobre as mudanças proporcionadas pelo projeto.

“Esse projeto nos dá autonomia, melhora muito nossa saúde. Se eu pudesse dar um conselho às garotas mais jovens, seria este: aproveitem, porque é muito bom”, afirma.

Em Pirajá, as atividades do Elas em Movimento acontecem no Conjunto Canto do Rio, Km 9, ampliando o alcance de uma iniciativa que ganhou força no Subúrbio.

UMA CONEXÃO DE MAIS DE 20 ANOS

A história do projeto no Lobato passa também por Vaneide Carvalho, responsável por levar a iniciativa para o bairro.

A ligação entre Vaneide e Ray não começou agora.

“Minha conexão com Ray, Raimilton de Carvalho, já dura mais de 20 anos”, conta.

Uma parceria antiga que encontrou no projeto uma nova maneira de mobilizar pessoas e contribuir para transformar vidas.

AUTOESTIMA E ALÍVIO PARA AS DORES

Entre as participantes mais jovens está Elisangela Santos, de 46 anos. Ela chegou ao projeto depois do convite de uma colega.

“Uma colega me falou sobre o projeto, fez o convite e estou aqui na zumba e também na hidroginástica. Melhorei a coluna e minha autoestima, a cada dia que passa, fica melhor”, relata.

O depoimento revela algo que aparece repetidamente nas conversas com as mulheres: os benefícios não são percebidos apenas fisicamente.

A convivência, o sentimento de pertencimento, as amizades e a possibilidade de reservar um momento para si também fazem diferença.

QUANDO OS FILHOS COBRAM A PRESENÇA

Para Eliana Alves, de 67 anos, o incentivo começa dentro de casa.

“Meus filhos me estimulam. Quando não venho, eles reclamam”, conta.

É uma cobrança carregada de carinho. A família percebe os benefícios das atividades e passa a participar, ainda que indiretamente, dessa rotina de cuidado.

A “CAÇULINHA” QUE ESTÁ DESDE O COMEÇO

E tem também a caçulinha da turma.

Daniela, de 38 anos, chegou ao projeto através de Vaneide e fala com bom humor sobre a experiência.

“Vaneide me convidou. Estou aqui, gosto muito”, diz.

Quando brincamos sobre sua condição de “novinha” do grupo, Daniela entrou no clima e avisou que poucas coisas seriam capazes de fazê-la faltar.

“Entre um show gratuito do cantor Pablo e o projeto, não venho para o projeto. Mas, fora isso, estarei aqui”, brincou.

Daniela tem ainda outro motivo para falar com orgulho do Elas em Movimento: ela participou dos primeiros momentos da iniciativa. Segundo conta, quando começou, eram apenas cinco mulheres.

Hoje, olhar para centenas de participantes distribuídas pelos diferentes núcleos ajuda a dimensionar o caminho percorrido.

LUCIANE: SAÚDE QUE CHEGA TAMBÉM À COMUNIDADE

Outra participante que chama atenção é Luciane Bomfim, agente comunitária de saúde e moradora do território.

Para ela, a atividade física vai muito além da questão estética. É também instrumento para enfrentar os desafios do cotidiano, cuidar da saúde e fortalecer a autoestima.

Luciane considera o projeto fundamental para a saúde, autonomia e autoestima das mulheres e acompanhou de perto seu crescimento no Lobato.

Ela lembra que as atividades começaram na Praça Pedra Dourada e, posteriormente, seguiram para a quadra do Colégio Estadual Dr. Ailton Pinto de Andrade.

De lá para cá, segundo ela, o movimento só cresceu.

A experiência vivida no projeto também atravessa sua atuação profissional. Como agente comunitária de saúde, Luciane passou a indicar a atividade para mulheres acompanhadas em sua área de trabalho.

“Indico essa atividade às pacientes da minha área”, conta, referindo-se à microárea 63, pertencente à área de abrangência da USF Joanes Centro-Oeste.

Luciene também chama atenção para o caráter social da iniciativa.

“Nós não arcamos com nada. Até nosso fardamento é gratuito. A única exigência é a força de vontade e a nossa garrafinha com água para hidratação”, destaca.

É uma característica importante para um projeto que pretende alcançar mulheres de diferentes realidades sociais: reduzir barreiras para que a atividade física possa fazer parte da rotina.

VALDECI: ZUMBA DE MANHÃ, À TARDE E À NOITE

Se as participantes demonstram disposição, a professora Valdeci de Jesus parece multiplicar essa energia.

Pura vitalidade, ela transformou as aulas de zumba em parte central de sua rotina e fala com entusiasmo sobre a relação construída com as mulheres.

“Todos os dias estou com essa galera, seja aqui ou em outros núcleos. Até em hospital tenho a minha galera de aulas. De manhã, à tarde e à noite é zumba o dia inteiro”, conta.

Mais do que conduzir os movimentos e ditar o ritmo das músicas, Valdeci tornou-se uma referência para muitas participantes.

A aula é exercício, mas também é encontro.

É suor, música, conversa, brincadeira e incentivo.

QUANDO UMA MULHER SE TORNA APOIO PARA A OUTRA

Talvez uma das principais forças do Elas em Movimento esteja justamente naquilo que não aparece nas estatísticas.

Nas conversas, as participantes deixam claro que uma se tornou ponto de apoio da outra.

Há aconselhamento, incentivo, troca de experiências e muita conversa. Mulheres de diferentes idades e histórias dividem o mesmo espaço e constroem vínculos que ultrapassam o horário das atividades.

Nem tudo, entretanto, é festa.

Algumas participantes relatam que ainda enfrentam comentários machistas e preconceituosos de homens em relação à participação feminina nas atividades. Segundo elas, há casos em que companheiros demonstram resistência ou reproduzem conceitos que acabam dificultando a presença das mulheres.

Para o grupo, essa é uma barreira que precisa ser enfrentada também por meio do diálogo.

“Infelizmente, o machismo ainda existe e alguns maridos da comunidade precisam desconstruir certos conceitos. Mas, devagar e sempre, vamos pedindo passagem”, resumiu uma das participantes.

A frase diz muito sobre o espírito encontrado entre as mulheres.

DE CINCO MULHERES A CERCA DE 800

De Clarice, aos 86 anos, a Daniela, aos 38, são gerações diferentes dividindo o mesmo espaço e descobrindo que movimento também significa encontro.

São mulheres que chegaram por indicação de amigas, por convite, pela necessidade de cuidar da saúde ou simplesmente pela vontade de experimentar algo diferente.

E ficaram.

Ficaram pela zumba, pela hidroginástica, pelas amizades, pelo alívio das dores, pela autoestima, pelas conversas e pela sensação de fazer parte de algo maior.

No começo, segundo o relato de uma das participantes, eram apenas cinco mulheres.

Hoje, a organização contabiliza cerca de 800 participantes distribuídas por 17 núcleos.

Os números impressionam.

Mas são as histórias de Clarice, Janete, Elisangela, Eliana, Daniela, Luciane, Valdeci e tantas outras mulheres que ajudam a explicar o crescimento da iniciativa.

Entre uma música e outra, um passo de dança e outro, elas cuidam do corpo, constroem amizades, fortalecem a autoestima e conquistam seus espaços.

E, diante das barreiras que ainda encontram pelo caminho, a resposta parece vir no próprio nome do projeto:

Elas estão em movimento — e não pretendem parar.