O BOM E VELHO PÉ DE MAMONA: MEMÓRIA QUE DESAPARECE DA PAISAGEM DO SUBÚRBIO
Quem viveu a infância no Subúrbio Ferroviário de Salvador nas décadas de 1970, 1980 e 1990 provavelmente guarda alguma lembrança dele. Bastava existir um terreno baldio, uma encosta, um quintal esquecido ou um pedaço de chão sem construção para aparecer o bom e velho pé de mamona.
A mamoneira, de nome científico Ricinus communis L., pertence à família Euphorbiaceae. Era tão comum na paisagem suburbana que quase passava despercebida. Para a meninada, porém, tinha uma utilidade muito particular: seus frutos viravam “munição”.
Era a época das inesquecíveis guerras de mamona.
De um lado da rua, uma turma. Do outro, os adversários. Mamona na mão, pontaria preparada e pernas ligeiras para correr depois do primeiro disparo. Em algumas versões mais sofisticadas da brincadeira, entrava em cena o estilingue. Não existia videogame conectado à internet nem grupo de WhatsApp para combinar o encontro. O terreno baldio era o nosso ponto de encontro, e a imaginação fazia o restante.
Só que a paisagem mudou.
Com o crescimento populacional, a ocupação urbana e a multiplicação das construções, muitos dos terrenos onde a mamoneira crescia espontaneamente desapareceram. E, junto com esses espaços, vai ficando cada vez mais difícil encontrar uma planta que durante décadas fez parte do cotidiano de diversas comunidades.
O desaparecimento da mamona da paisagem urbana não ameaça apenas uma lembrança afetiva das crianças de outras gerações. Existe também uma dimensão ancestral e religiosa nessa história.
UMA FOLHA SAGRADA
No universo das religiões de matriz africana, as folhas não são simples elementos decorativos. Elas possuem funções, significados e fundamentos próprios. A mamona aparece em estudos etnográficos sobre o Candomblé como ewé lárà (ewe lará).
Dependendo da tradição, da variedade da planta, da nação e dos fundamentos de cada terreiro, suas associações e utilizações podem variar. Há registros de folhas de mamona empregadas para forrar espaços rituais, envolver ebós, servir de suporte para oferendas e integrar determinados procedimentos de limpeza e fundamentos religiosos.
Uma pesquisa etnográfica publicada na SciELO relata, por exemplo, a procura de integrantes de um terreiro por folhas de mamona em terrenos baldios. Na casa estudada, a colheita envolve um preceito: antes de retirar as folhas, faz-se o pagamento ritual a Ossaim, orixá relacionado às folhas e ao conhecimento das plantas, e a coleta é realizada em silêncio. Na tradição específica pesquisada, a mamona também aparece relacionada a Exu, sendo compreendida como folha ligada ao caminho, ao trânsito e à comunicação.
Isso mostra que aquele pé de mamona que para uma criança podia representar apenas a próxima “guerra” da rua poderia, para uma comunidade de terreiro, possuir um significado completamente diferente e profundamente sagrado.
É importante ressaltar que não existe uma única forma de utilização da mamona em todas as casas de Candomblé. Associações com orixás, formas de colheita e aplicações litúrgicas dependem da tradição, da nação e dos fundamentos transmitidos dentro de cada comunidade religiosa.
QUANDO O TERRENO BALDIO TAMBÉM GUARDA MEMÓRIA
Talvez seja justamente aí que esteja a parte mais bonita dessa história.
O terreno baldio que muita gente enxergava apenas como mato guardava diferentes mundos.
Para a criança, era campo de futebol, esconderijo e território das guerras de mamona.
Para quem conhecia as folhas e seus fundamentos, podia ser lugar onde se encontrava uma planta necessária à manutenção de práticas religiosas ancestrais.
E para a cidade, mesmo sem perceber, aqueles espaços funcionavam como pequenos refúgios de uma vegetação espontânea que acompanhou gerações.
Hoje, encontrar um pé de mamona no meio do concreto pode despertar uma sensação que vai muito além da botânica.
É memória.
É lembrar do menino voltando para casa depois de uma guerra de mamonas, às vezes com as marcas da brincadeira estampadas no corpo. É recordar os terrenos onde praticamente tudo podia virar brinquedo. Mas é também reconhecer que aquela mesma planta atravessou saberes, crenças e tradições muito anteriores às nossas brincadeiras.
O crescimento das cidades é inevitável. Mas talvez possamos crescer sem apagar completamente os rastros daquilo que fomos.
Porque, no Subúrbio, até um simples pé de mamona pode contar uma história.
Uma história de infância, de território, de ancestralidade e de fé.
E quem foi criança por aqui sabe: onde havia um terreno baldio e um pé de mamona, dificilmente faltava história para contar.

