Vexame só aumenta: o ano do Bahia acabou em abril
O quarto gol do Remo saiu mesmo depois de o jogo ter acabado. Evitar o contato dos jogadores com a torcida não foi “cuidado excessivo”; e assumir a responsabilidade, mais uma vez, soou como atitude de “dono de clube”: “é meu e faço o que eu quero”. Mais de 30 mil torcedores enfrentaram uma chuva torrencial para estar na Arena. Vale lembrar que a Defesa Civil recomendava ficar em casa e proteger pertences em sacos plásticos.
São três anos de Rogério Ceni, mais de 150 jogos, 59% de aproveitamento, participações em duas Libertadores, títulos regionais e estaduais — mas não estamos falando sobre isso. A entrega feita pelo torcedor tricolor não é diretamente proporcional ao esforço de jogadores, comissão técnica e dos “donos” do clube.
Quem está à frente do Bahia ou se faz de louco, ou não tem a mínima noção da história dessa torcida, da situação econômica do país e da violência exacerbada enfrentada em nosso estado. Manter uma média de público de 37.550 pessoas é um esforço surreal para as nossas condições financeiras. Tornou-se tão comum que parece trivial, mas não é. Algum “santo está sendo descoberto” — em alguma área de investimento ou de atuação — para segurar esses números em prol do ECB; algum setor está com o cinto apertado para viabilizar essa paixão.
Reconhecimento é o mínimo. Uma frase clichê, mas muito válida nesta discussão, é: “pessoas vão, a agremiação fica”. Porém, o desgaste já é evidente. Três anos é muito tempo quando o assunto é a paixão de uma nação e a esperança sendo ceifada. Esperamos por um “projeto a longo prazo” desde a época do Banco Opportunity.
Não abraçar essa torcida é dizer que pouco importa o esforço do assalariado que paga “700 paus” na camisa nova. É judiar e deixar implícito que “comprou porque quis”. É sofrer um 7 a 2 para o Remo no placar agregado e ainda manter o elenco como intocável. É comprar um zagueiro de 18 anos que sequer é relacionado, enquanto o time principal está cheio de lacunas. É pagar, em três anos, um prêmio de loteria esportiva em salários a um treinador que sequer é questionado.
Vocês compraram o clube e fazem como bem entendem, mas mexer com a paixão de uma torcida desta magnitude é, no mínimo, estupidez. Estamos em um estado onde cerca de 12% da população (1,42 milhão de pessoas) não sabe ler ou escrever. Mas a mágoa, senhores “donos da verdade e da bola”, uma hora cala o torcedor de tanto maltrato.

