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Como diria o Furacão Loiro: “Bolão e as palmas de vocês”

Do pandeiro gigante carregado por um jovem fã nos shows do Cheiro de Amor à criação do primeiro método brasileiro dedicado exclusivamente ao ensino das congas, Orlando Bolão transforma mais de quatro décadas de música em conhecimento e legado

Para o jornalista que vos fala, que desde moleque acompanha o trabalho desse cara, peço licença poética ao texto jornalístico. Desta vez, antes de escrever sobre o músico, preciso escrever sobre o ídolo.

No início dos anos 1990, quando entrar em determinados shows exigia mais criatividade do que dinheiro no bolso, encontrei meu jeito. Carregava, como roadie, o pandeiro gigantesco de Orlando Bolão para conseguir entrar gratuitamente nos shows da Banda Cheiro de Amor.

Era o meu “ingresso”.

E eu ia feliz.

Talvez Bolão nem imaginasse que aquele garoto que ajudava a carregar seu instrumento estava também carregando para a vida uma memória que, décadas depois, viraria texto.

Porque já naquela época era impossível não reparar nele.

Bolão não precisava estar no centro do palco para chamar atenção. Seus figurinos eram revolucionários para a época, sua presença tinha personalidade e, quando colocava as mãos nas congas, surgia aquele toque que você podia reconhecer mesmo sem olhar para o palco.

Por anos, vi aquele músico construir uma trajetória que ultrapassaria os limites de qualquer banda.

Orlando Bolão vive dizendo que é apenas um “tocador de tambor”.

Discordo.

Talvez seja a maneira humilde que encontrou para explicar o inexplicável. Porque Deus, os orixás, a música e o próprio tempo reservaram algo muito maior para aquelas mãos.

Músico de excelência, ouvido apurado e dono de uma sensibilidade rara, Bolão tocou, produziu, compôs e dividiu experiências com uma quantidade impressionante de artistas.

Sua relação com o Cheiro de Amor começou ainda na década de 1980, depois de uma apresentação da banda na orla de Salvador. Vieram anos marcantes, parcerias na percussão — primeiro com Zuca, depois com Bastola — e uma história que se confunde com um período fundamental da música produzida na Bahia.

Mas o tempo tratou de transformar o músico também em mestre.

Hoje, aquelas mesmas mãos que fizeram multidões dançarem querem ensinar outras mãos a encontrar seu próprio som.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das partes mais bonitas dessa história.

Das congas do palco para as páginas de um livro

Aos poucos, aquilo que Orlando Bolão acumulou em palcos, estúdios, viagens, pesquisas e encontros começou a assumir outra responsabilidade: não deixar o conhecimento morrer com quem o aprendeu.

É dessa inquietação que nasce “Meta Congas – Rudimentos para Congas”, livro que será lançado oficialmente no dia 10 de setembro, às 19h30, na Casa da Música, na Lagoa do Abaeté, em Itapuã, Salvador.

A publicação chega com uma marca histórica: apresenta-se como a primeira obra brasileira dedicada exclusivamente ao ensino das congas, resultado de uma metodologia desenvolvida por Bolão ao longo de 43 anos de pesquisa.

Antes do lançamento oficial, o projeto terá uma atividade destinada aos alunos da Escola Pracatum, em 2 de setembro. Depois de Salvador, o Meta Congas segue para São Paulo: em 28 de setembro, às 10h, na Universidade Estadual Paulista (UNESP), e em 30 de setembro, às 15h30, na Escola de Música do Estado de São Paulo (EMESP).

É um itinerário simbólico para quem passou boa parte da vida fazendo a música viajar.

Agora, é o conhecimento que pega a estrada.

Um livro que nasceu de uma pergunta

O Meta Congas não surgiu simplesmente da vontade de publicar um método.

Nasceu de uma pergunta que acompanhou Bolão desde a adolescência: de onde vinha toda aquela riqueza rítmica que ele ouvia e tocava?

Essa curiosidade o levou ao Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO), da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e acompanhou sua formação durante décadas.

Enquanto construía sua carreira profissional, Bolão continuava observando, pesquisando e tentando compreender a relação entre corpo, mãos, tambor, ritmo e ancestralidade.

Nesse percurso, identificou uma dificuldade: boa parte dos métodos existentes dependia do conhecimento prévio de leitura musical e não dialogava plenamente com a realidade de muitos percussionistas brasileiros.

Ele resolveu construir outro caminho.

Em vez de simplesmente transportar para as congas conceitos desenvolvidos para bateria ou outros instrumentos, criou um vocabulário próprio de movimentos, articulações e rudimentos pensado especificamente para o comportamento das mãos sobre as congas.

O método trabalha com exercícios progressivos e uma linguagem intuitiva, buscando atender desde quem está começando até músicos, professores e percussionistas profissionais.

E há tecnologia no meio dessa tradição.

Os exercícios contam com QR Codes que conduzem a vídeos demonstrativos, permitindo que o estudante veja como os movimentos são executados.

Livro, imagem, som e movimento passam a ensinar juntos.

Quem aprendeu fazendo agora ensina compartilhando

Existe uma diferença enorme entre saber tocar e saber ensinar.

Bolão decidiu enfrentar justamente essa distância.

O homem que acumulou experiências com artistas como Alejandro Sanz, Eumir Deodato, Banda Black Rio, Daniela Mercury, Gaby Amarantos e Cheiro de Amor, entre tantos outros, poderia simplesmente olhar para trás e contemplar o currículo.

Preferiu olhar para frente.

O Meta Congas transforma experiência individual em patrimônio compartilhado.

Não pretende apenas ensinar onde colocar a mão ou como executar determinado movimento. Há, por trás do método, uma tentativa de organizar e transmitir conhecimentos relacionados às tradições percussivas afro-brasileiras e afro-latino-americanas sem arrancá-los de sua história.

É técnica, mas também memória.

É método, mas também ancestralidade.

É inovação sem esquecer quem veio antes.

Da Bahia para novas gerações

O músico e produtor Guga Stroeter, responsável pelo prefácio da obra, destaca justamente o caráter pioneiro da iniciativa: a possibilidade de sistematizar e transmitir esse conhecimento a partir da própria tradição musical brasileira.

Isso ajuda a dimensionar o que está acontecendo.

Depois de mais de quatro décadas fazendo música, Bolão começa a transformar aquilo que estava nas mãos em algo que poderá permanecer nas mãos de outras pessoas.

E é aqui que o jornalista volta a dar lugar ao menino.

Quando carregava aquele pandeiro enorme para entrar nos shows do Cheiro de Amor, eu queria apenas ficar perto da música. Não imaginava que estava observando parte da construção da história de um sujeito que, tantos anos depois, transformaria experiência em ferramenta para ensinar novas gerações.

Bolão continua dizendo que é apenas um tocador de tambor.

Pode continuar dizendo.

Quem acompanhou sua trajetória sabe que o tambor foi apenas o instrumento escolhido para algo muito maior.

Alguns músicos aprendem a dominar o instrumento.

Outros conseguem fazer o instrumento contar quem eles são.

E existem aqueles que, depois de uma vida inteira tocando, percebem que chegou a hora de ensinar outras mãos a continuar a batida.

Orlando Bolão chegou a esse momento.

E parafraseando aquele inesquecível chamado do Furacão Loiro, que tantas vezes embalou uma geração:

“Bolão… e as palmas de vocês!”

Porque desta vez o aplauso não é apenas para quem toca.

É para quem decidiu deixar legado.

Afonso Batista
Jornalista — Soterosuburbano
O Subúrbio que dá certo