Dona Maria, 80 anos: uma vida que se confunde com a história do Lobato
Quem mora, quem já morou ou quem simplesmente frequentou o Lobato em algum momento da vida certamente conhece — ou pelo menos já ouviu falar — de Dona Maria, a ilustre moradora da Rua Monteiro Lobato.
Para os mais próximos, simplesmente Dona Mara.
Falar de Dona Maria é contar um pedaço da história do próprio bairro. É voltar no tempo, lembrar de uma época em que comércio não era apenas lugar de comprar e vender. Era ponto de encontro, espaço de conversa, de confiança, de amizade e, muitas vezes, de solidariedade.
E foi assim que Dona Maria construiu sua história.
Sua mercearia, armazém, peixaria, padaria… chamar de quê? Talvez seja mais justo dizer que ali existia um pouco de tudo. Foi um dos primeiros e mais tradicionais comércios da região, daqueles estabelecimentos que acabavam se transformando em referência para toda a comunidade.
Ali também existia uma instituição que as novas gerações talvez conheçam pouco: o caderninho.
O bom e velho fiado.
Numa época em que não existiam Pix, aplicativos, cartões por aproximação ou bancos na palma da mão, valia uma coisa muito mais importante: a palavra.
Dona Maria conhecia seus clientes. Conhecia as famílias, os filhos, os pais, os vizinhos. Sabia quem estava empregado, quem atravessava um momento difícil e quem precisava levar a compra para casa e pagar depois.
Quantas famílias do Lobato não tiveram comida na mesa porque alguém anotou uma compra naquele caderninho?
Essas contas talvez tenham sido pagas há décadas. Mas certas dívidas de gratidão o tempo nunca apaga.
E o pequeno empreendimento resistiu.
Vieram governos, planos econômicos, mudanças de moeda, inflação assustadora, recessões e crises. O Brasil passou por ditadura, redemocratização, Plano Cruzado, Plano Bresser, Plano Verão, Plano Collor, Plano Real…
E Dona Maria continuou ali.
Trabalhando.
Vendendo.
Comprando.
Negociando.
Acordando cedo.
Fazendo conta.
Criando os filhos.
Ajudando a comunidade.
O comércio de Dona Maria atravessou gerações porque, antes de ser feito de mercadorias, sempre foi feito de gente.
Agora, em setembro, essa mulher completa 80 anos de vida.
Oito décadas que carregam uma história de luta, empreendedorismo, coragem, inovação e, sobretudo, amor.
Esposa do saudoso Seu João, mãe de Elson e Cristiane, avó apaixonada de Pablo, Dona Maria nunca foi uma personagem que pudesse passar despercebida.
Muito pelo contrário.
Onde Dona Maria chegava, Dona Maria era notada.
E se existe uma paixão capaz de competir com o amor pela família, ela atende pelo nome de Esporte Clube Vitória.
Rubro-negra de carteirinha, daquelas que não aceitavam conversa atravessada quando o assunto era o Leão, Dona Maria ajudou a formar gerações de torcedores.
Quantos meninos e meninas não foram levados por ela para assistir a jogos inesquecíveis na velha Fonte Nova ou no Barradão?
Quantos não tiveram a oportunidade de jogar futebol na escolinha do Vitória, em Piatã?
E Carnaval?
Ah, Dona Maria também estava lá.
Levou gerações para pular Carnaval no Campo Grande, quando a festa ainda guardava aquele sabor das grandes lembranças familiares de Salvador.
E para transportar tanta gente havia algumas personagens quase tão famosas quanto a própria dona: a Brasília verde, a Caravan e, depois, sua imponente Saveiro.
Os carros de Dona Maria tinham uma característica que nenhuma montadora jamais colocou no manual:
sempre cabia mais um.
Eram iguais a coração de mãe.
Quando parecia não haver mais espaço, alguém dava um jeitinho, apertava daqui, ajeitava dali e pronto.
Entrava mais um.
E lá ia Dona Maria carregando sua turma.
Para o futebol.
Para o Carnaval.
Para resolver alguma coisa.
Para passear.
Para viver.
Porque Dona Maria nunca foi apenas uma comerciante.
Dona Maria sempre foi movimento.
Era igualmente fácil encontrá-la na Feira de São Joaquim, fazendo suas compras, escolhendo mercadorias e mantendo aquela rotina de quem aprendeu que comércio se faz conhecendo aquilo que se vende e, principalmente, respeitando quem compra.
Mas quem conhece Dona Maria sabe que por trás dessa comerciante existe uma personalidade impossível de imitar.
Carismática, generosa, amiga e extremamente leal.
Se você caísse nas graças de Dona Maria, podia ter certeza: ela movia céus e terras por você.
Defendia.
Ajudava.
Procurava solução.
Dava um jeito.
Mas também existia o outro lado.
Se vacilasse com ela…
Saísse de baixo.
Dona Maria nunca precisou gritar para colocar ninguém no lugar. Com palavras diretas, firmes e sempre mantendo a classe, possuía aquela rara capacidade de dar uma bronca que fazia qualquer um sair pensando na vida.
Às vezes, a pessoa chegava cheia de razão e saía de cabeça baixa.
Esse jeito forte, entretanto, sempre caminhou ao lado de um coração enorme.
Talvez por isso Dona Maria tenha reunido ao redor de si muito mais do que uma família de sangue. Ao longo da vida, foi construindo uma verdadeira família de afetos.
E nela existe um nome que não poderia ficar de fora desta homenagem: Jurema.
Filha do coração, companheira, amiga e auxiliar por mais de três décadas.
Trinta anos não são apenas uma relação de trabalho.
São uma vida compartilhada.
São manhãs, tardes, dificuldades, alegrias, contas, clientes, conversas, preocupações e vitórias divididas.
Jurema faz parte dessa história porque esteve presente quando muitos capítulos dela estavam sendo escritos.
Assim como o fiel escudeiro e genro Jonei.
Sempre presente.
Sempre disposto.
Sempre ali quando a sogra precisa.
Porque algumas relações deixam de caber nos nomes tradicionais de parentesco. Chega uma hora em que genro vira filho, auxiliar vira filha e amizade vira família.
E talvez essa seja uma das maiores riquezas acumuladas por Dona Maria nesses 80 anos.
Não está guardada no banco.
Não cabe numa conta.
Não pode ser medida pelo tamanho do comércio.
Sua maior riqueza são as pessoas.
Hoje, no alto dos seus 80 anos, aquela comerciante forte da Rua Monteiro Lobato continua cercada pelos filhos que não desgrudam da mãe e completamente apaixonada pelo neto Pablo, que também escolheu o comércio e, de alguma maneira, ajuda a manter viva uma vocação que atravessa gerações.
O tempo passou.
O Lobato mudou.
A Rua Monteiro Lobato mudou.
Os antigos fregueses envelheceram.
As crianças cresceram.
Muitas constituíram suas próprias famílias.
A velha Fonte Nova virou memória.
Os carros mudaram.
O caderninho praticamente desapareceu.
O dinheiro mudou de nome várias vezes.
Vieram cartão, internet, celular e Pix.
Mas algumas coisas não mudam.
Porque existem pessoas que deixam de ser apenas moradoras de um bairro e passam a fazer parte de sua memória coletiva.
Dona Maria é uma dessas pessoas.
Talvez muita gente que passou pelo seu comércio nem se lembre mais do que comprou.
Mas certamente se lembra de quem estava atrás do balcão.
Lembra do jeito de falar.
Da personalidade forte.
Das histórias.
Das broncas.
Das risadas.
Do futebol.
Do Vitória.
Dos carros sempre lotados.
Da disposição para ajudar.
E, principalmente, daquela mulher que fez do trabalho uma forma de cuidar da família e também da comunidade onde escolheu construir sua vida.
Por isso, celebrar os 80 anos de Dona Maria não significa apenas comemorar uma data de aniversário.
É celebrar uma mulher que ajudou a escrever a história cotidiana do Lobato.
Uma história que talvez nunca tenha aparecido nos grandes jornais, mas está guardada na memória de centenas de pessoas.
É a história da comerciante.
Da mãe.
Da esposa.
Da avó.
Da amiga.
Da rubro-negra apaixonada.
Da mulher de personalidade forte.
Daquela que ajudava quando podia — e muitas vezes ajudava até quando não podia.
É celebrar uma geração de mulheres que aprendeu a empreender muito antes de a palavra “empreendedorismo” virar moda.
Dona Maria não precisou de curso para aprender a empreender.
Ela aprendeu vivendo.
Aprendeu no balcão.
No caderninho.
Na Feira de São Joaquim.
Na negociação com fornecedores.
Nas crises.
Nas mudanças de moeda.
Nos dias bons e, principalmente, nos dias difíceis.
E venceu.
Chegar aos 80 anos cercada pelos filhos, pelo neto, pelo genro, por Jurema, pelos amigos e pelo carinho de uma comunidade inteira talvez seja a maior prova disso.
Por tudo isso, Dona Mara, receba esta homenagem não apenas pelos seus 80 anos de vida, mas por tudo aquilo que sua existência representa para tanta gente.
Obrigado pelas portas abertas.
Pelos carros lotados.
Pelos jogos.
Pelos carnavais.
Pelos caderninhos.
Pelas broncas necessárias.
Pelas mãos estendidas.
Pela amizade.
E por ter transformado um simples comércio da Rua Monteiro Lobato em um lugar onde tantas histórias começaram.
Parabéns, Dona Maria!
80 anos de vida.
80 anos de histórias.
80 anos de luta, coragem e amor.
E uma certeza:
quem conhece o Lobato conhece um pouco de Dona Maria. E quem teve o privilégio de conhecer Dona Maria carrega consigo um pedaço da história do Lobato.

