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HISTÓRIAS QUE INSPIRAM | Pró Ana: há 41 anos, uma casa se transformou em escola e abriu portas para o futuro no Lobato

Ao lado do esposo, seu Beto, Ana Ribeiro Marques da Cruz construiu uma história de trabalho, afeto e educação que atravessa gerações.

Em 12 de agosto de 1985, uma casa na Rua Monteiro Lobato, número 244, começou a ganhar uma nova vida. O endereço onde Ana Ribeiro Marques da Cruz morava com o esposo, seu Beto, e os filhos, Marquinhos, a estrelinha da família Marques, Tati e Fabinho, passou a abrigar também um sonho: uma escola.

Dona Ana, a nossa pró Ana, abriu as portas da própria residência para receber crianças e ajudar a construir futuros. Naquele espaço de convivência familiar, a educação encontrou morada. Nascia a Escola do Bozo, que completou 41 anos em agosto deste ano.

O nome foi inspirado no programa do palhaço Bozo, sucesso do SBT que marcou a infância de tanta gente. A atração saiu do ar, mas o sonho de pró Ana permaneceu. Enfrentou dificuldades, atravessou décadas e continua de pé, fazendo parte da história do Lobato e das famílias da região.

Há casas que guardam lembranças de uma família. A de pró Ana passou a guardar lembranças de gerações inteiras.

É dessa mulher da nossa terra que o Histórias que inspiram fala desta vez. Uma educadora cuja trajetória também se escreve nos pequenos gestos, no trabalho cotidiano e na confiança que deposita naquilo que construiu.

Sua única neta estuda na escola. Para a família, a educação oferecida às crianças do Lobato e das adjacências é também aquela escolhida para dentro de casa. Uma continuidade que aproxima ainda mais a história da instituição da história de quem a fundou.

Uma homenagem que já não podia esperar

Há meses, conversávamos com Tatiana Marques, filha de dona Ana e atual diretora da escola, sobre esta homenagem. Entre as responsabilidades da gestão e os compromissos do dia a dia, a conversa acabava ficando para depois.

Até que uma passagem da nossa equipe pelo açougue de seu Beto, no bairro do Uruguai, tornou impossível continuar adiando estas palavras.

Era domingo. Antes mesmo das seis da manhã, lá estavam Ana e Beto, preparando-se para abrir o estabelecimento e encarar mais um dia de trabalho.

A cena deixou inquietas as mãos deste jornalista.

Quem imagina que pró Ana entregou a administração da escola à filha e se afastou da batalha cotidiana precisa conhecer melhor essa história. A mudança de responsabilidades não encerrou sua disposição de produzir, participar e seguir ao lado do companheiro.

Naquela manhã, o casal estava ali, como esteve tantas outras vezes ao longo da vida: junto, trabalhando.

A expressão “o trabalho edifica o homem” encontrou, diante dos nossos olhos, dois rostos conhecidos. Rostos que carregam anos de esforço e uma história construída sem atalhos.

A bola na varanda e o sorriso da professora

Mas falar de pró Ana também é abrir uma porta da minha própria infância.

Minha geração transformava a frente da casa dela em campo de futebol. Era ali que a bola corria, que a brincadeira acontecia e que a rua ganhava a alegria dos nossos encontros.

De vez em quando, a bola teimava em cair na varanda da casa que havia virado escola.

E lá vinha ela.

Pró Ana deixava a sala de estar e devolvia a bola, gentilmente, quase sempre com aquele sorriso de educadora que ficou guardado na memória.

Para os meninos, era a chance de continuar a partida. Para quem recorda hoje, tantos anos depois, o gesto revela a delicadeza de uma mulher que também sabia acolher a infância do lado de fora da sala de aula.

O tempo passou. Os meninos cresceram. Mas aquele sorriso ainda mora nas nossas lembranças.

Uma história feita por muitas mãos

Pela Escola do Bozo passaram profissionais que também merecem ser lembradas com carinho, como pró Nazaré e pró Del, falecida há alguns anos. Educadoras que ajudaram a dar vida ao projeto e deixaram suas contribuições na formação de tantos estudantes.

Passaram também centenas de crianças que cresceram, constituíram famílias e seguiram diferentes caminhos. Entre elas, médicos, advogados, engenheiros, empresários e tantos outros trabalhadores.

Cada trajetória tem seus próprios esforços, encontros e oportunidades. A escola faz parte desse começo: o lugar onde muitos aprenderam as primeiras lições e começaram a descobrir o que poderiam ser.

O valor dessa história aparece tanto nos diplomas quanto nas lembranças de quem ainda reconhece, com gratidão, as professoras e o endereço onde estudou.

Ana e Beto: companheiros de vida e de luta

Seu Beto também tem lugar indispensável nesta homenagem.

Companheiro dessa caminhada, ele compartilha com dona Ana uma disposição para o trabalho que impressiona quem acompanha o casal. Chegou até nós o relato de que, após uma queda, teria sido visto trabalhando com o braço imobilizado.

O carinho por essa dedicação vem acompanhado do desejo de que ambos também encontrem tempo para cuidar de si e aproveitar o que construíram. Depois de tantos anos oferecendo tanto, merecem saúde, descanso e reconhecimento.

É para isso que contamos histórias como esta: para reconhecer, em vida, quem ajudou a formar nossa gente. Para lembrar que o Subúrbio tem pessoas cujas realizações merecem ser vistas, ouvidas e celebradas.

Pró Ana e seu Beto são parte dessa riqueza.

Na Rua Monteiro Lobato, número 244, uma família abriu espaço para um sonho. Quarenta e um anos depois, esse sonho continua recebendo crianças — inclusive uma neta — e devolvendo ao bairro novas possibilidades.

Pró Ana, a senhora devolveu muitas vezes a bola aos meninos da minha geração. Hoje, este jornalista devolve um pouco daquele carinho, em forma de palavras.

A senhora e seu Beto merecem nossa homenagem, nosso respeito e nossa gratidão.