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UM ANO DE TRABALHO POR UM CELULAR? A CONTA QUE ASSUSTA

Um trabalhador que recebe um salário mínimo no Brasil pode passar praticamente um ano inteiro trabalhando e, mesmo considerando 13º salário e adicional de férias, ver sua renda anual ser colocada lado a lado com o preço anunciado de um único aparelho: R$ 21.999.

Pense nisso por alguns segundos.

É salário entrando e saindo. É conta de luz, água, aluguel, gás, remédio, comida, transporte. É filho pedindo alguma coisa. É uma emergência aparecendo quando menos se espera. É a vida real acontecendo todos os dias.

Para imaginar a compra de um aparelho nessa faixa de preço, esse trabalhador teria praticamente que fazer uma coisa impossível: trabalhar para o celular e esquecer que precisa viver.

Não comer. Não pegar ônibus. Não pagar uma conta. Não comprar um pão. Não adoecer. Não ajudar ninguém em casa. Não gastar absolutamente nada.

Tudo isso por um telefone.

Estamos, inclusive, fugindo um pouco do perfil habitual das nossas matérias. Mas este jornalista que vos escreve quase entrou em colapso ao se deparar, neste fim de semana, com uma matéria de um jornal local de grande circulação abordando um aparelho nessa faixa de preço.

O que deveria apenas informar e entreter provocou outra reflexão: em que momento normalizamos um celular custar o equivalente a tantos meses de suor de um trabalhador?

Não se trata de demonizar tecnologia, muito menos de dizer como alguém deve gastar o próprio dinheiro. Quem pode comprar, compra. A questão é outra: é olhar para R$ 21.999 e lembrar o tamanho desse número na vida de quem acorda cedo, enfrenta ônibus lotado, trabalha oito horas ou mais e fecha o mês contando moedas.

Para uns, é lançamento.

Para outros, é uma fortuna.

E talvez o mais assustador nem seja o preço do aparelho. É perceber o quanto o trabalho de milhões de brasileiros ainda vale pouco diante da prateleira.

R$ 21.999 por um celular.

Bonito? Pode ser.
Tecnológico? Certamente.
Revolucionário? Talvez.

Mas, olhando com os olhos de quem vive o Brasil de verdade, a primeira função que esse aparelho conseguiu ativar por aqui foi outra:

o modo indignação.