CABÔ O BABA | Triste Bahia: quando o futebol esfria até a resenha no Subúrbio
O futebol morno do time de Rogério Ceni parece tirar, aos poucos, o entusiasmo de quem fazia de cada partida um encontro entre amigos e familiares.
O Bahia de Rogério Ceni está conseguindo algo que preocupa para além das quatro linhas: esfriar um costume que sempre fez parte da vida suburbana. Assistir aos jogos em família, nos bares ou na casa de um amigo era muito mais do que acompanhar uma partida. Era motivo para reunir gente, acender a churrasqueira, preparar os petiscos e colocar a conversa em dia.
Na minha percepção, esses encontros estão ficando mais raros. Não se trata de uma pesquisa, mas de uma mudança que observo nas rodas de amigos e nos relatos de torcedores próximos. A disposição para organizar o domingo em torno do Bahia parece diminuir a cada atuação que promete emoção e entrega pouco.
O problema não é simplesmente perder. É deixar o torcedor sem vontade de esperar pelo próximo jogo.
A torcida tricolor sabe conviver com dificuldades. Já sofreu, cobrou, apoiou e encontrou razões para cantar mesmo quando o cenário era desfavorável. Mas esse futebol de “morde e assopra”, que anima em um momento e decepciona no seguinte, vai consumindo a paciência de quem se importa de verdade.
Uma boa atuação reacende a esperança. Outra partida morna devolve a frustração. E o torcedor fica nesse vaivém, esperando uma sequência que transforme expectativa em confiança.
Em outras épocas, uma véspera de feriado era convite para a festa. Bares, restaurantes e salas de famílias suburbanas recebiam gente de camisa tricolor. Tinha churrasco, gritaria, discussão sobre a escalação e resenha que continuava muito depois do apito final. O jogo marcava o encontro, mas a convivência fazia o restante.
Hoje, conheço torcedores apaixonados que estão escolhendo outras ocupações e outros prazeres. Gente que paga para acompanhar o clube, mas já não se anima sequer a fazer o check-in para ir ao estádio. São relatos próximos, que não representam toda a torcida, mas merecem atenção: quando quem sempre esteve presente começa a abrir mão do jogo, alguma coisa precisa ser revista.
Isso não torna ninguém menos tricolor. Ninguém tem obrigação de entregar todas as suas horas de descanso a uma experiência que vem produzindo mais desgaste do que alegria. O amor pelo clube permanece; a disposição para repetir a frustração é que tem limite.
Rogério Ceni precisa fazer o Bahia oferecer mais razões para o torcedor se envolver. Organização, intensidade, alternativas e capacidade de reação precisam aparecer em campo com regularidade. Quando uma estratégia não funciona, é necessário encontrar outra saída. A cobrança não pode terminar sempre na promessa de que a próxima partida será melhor.
A responsabilidade também alcança os jogadores e a direção. Quem veste a camisa precisa compreender o peso que ela tem na vida de quem acompanha. Quem conduz o futebol precisa avaliar o desempenho com exigência. O entusiasmo da torcida não pode ser tratado como um recurso inesgotável, disponível independentemente da resposta do time.
É claro que o futebol, sozinho, não explica as mudanças nos hábitos do Subúrbio. Há custos, rotinas de trabalho e compromissos familiares. Mas, no que observo, o desempenho do Bahia tem contribuído para tirar o jogo do centro desses encontros. Antes, muita gente fazia questão de reunir a turma. Agora, alguns já perguntam se vale a pena.
E essa pergunta deveria incomodar o clube.
O Bahia precisa voltar a produzir aquele sentimento que faz alguém mandar uma mensagem cedo: “O jogo vai ser aqui em casa. Pode chegar!”. Precisa dar combustível à conversa do bar, ao abraço depois do gol e à ansiedade boa de esperar a bola rolar.
Não se exige vitória em todas as partidas. Exige-se um futebol que justifique a expectativa, uma equipe que responda à cobrança e um trabalho que apresente evolução perceptível.
Porque o Bahia ocupa um espaço que vai além da tabela. Está nas relações entre pais e filhos, nos encontros entre vizinhos e nas lembranças de quem aprendeu a torcer dentro de casa. Quando o futebol esfria, parte dessa convivência perde seu motivo de reunião.
Triste Bahia. Mais triste ainda é perceber que, para alguns torcedores, o próximo jogo já não faz tanta falta.
Afonso Batista | Cabô o Baba — Soterosuburbano

