REFÉNS DA BOLHA
Da indignação das ruas à polarização das redes sociais, o Brasil parece ter desaprendido a conviver com as diferenças.
As manifestações populares de 2013 e 2014 acenderam um sinal de alerta na classe política brasileira. Em 2013, moradores de centenas de cidades foram às ruas protestar. Na pauta de reivindicações, tinha de tudo: saúde, educação, impostos, corrupção e até os famosos 20 centavos de aumento nas tarifas do transporte público.
O que começou como uma insatisfação com o preço das passagens ganhou proporções nacionais e revelou um sentimento de indignação que ultrapassava partidos e ideologias.
Naquele período, intensificou-se um fenômeno que, nos anos seguintes, dividiria a população brasileira em dois grandes campos: petistas e progressistas de um lado; bolsonaristas e conservadores do outro. Embora o bolsonarismo tenha se consolidado posteriormente, a polarização que favoreceu sua ascensão já encontrava terreno fértil.
Instalou-se uma lógica de Fla-Flu ou, trazendo para a nossa realidade, de Ba-Vi. Uma disputa na qual parece não existir espaço para o empate, a ponderação ou o reconhecimento das qualidades do adversário.
A política nacional passou a reproduzir uma dualidade quase medieval: céu contra inferno, bem contra mal, santos contra pecadores. Uma visão maniqueísta que transforma divergências políticas em batalhas morais.
De lá para cá, uma sucessão de acontecimentos contribuiu para desgastar a imagem da classe política, até então frequentemente protegida pelo corporativismo de seus próprios integrantes.
Dinheiro escondido em cuecas, milhões encontrados em apartamentos, delações premiadas, prisões, escândalos de corrupção, assassinatos e o segundo impeachment presidencial da história brasileira. Tudo isso acompanhado de uma interminável disposição para defender o chamado político de estimação.
Nenhum dos grandes campos políticos atravessou esse período imune ao desgaste político e moral que atingiu o país.
Mas existe outro personagem nessa história: o algoritmo.
As redes sociais, que começaram a ganhar popularidade no Brasil ainda nos anos 2000, com o Orkut, e se expandiram posteriormente com Facebook, Instagram e outras plataformas, transformaram profundamente a maneira como recebemos, compartilhamos e interpretamos informações.
Essas plataformas utilizam os chamados algoritmos, conjuntos de instruções e regras que orientam o funcionamento dos sistemas digitais.
Trazendo para o nosso bom e velho feijão com arroz, um algoritmo funciona, a grosso modo, como uma receita de bolo. A diferença é que, nas redes sociais, essa receita ajuda a decidir o que aparece na tela de cada usuário.
Vou simplificar ainda mais.
Se gosto de churrasco e passo boa parte do tempo curtindo publicações sobre o assunto, provavelmente receberei cada vez mais conteúdos relacionados a carnes, carvão, churrasqueiras e receitas de pão de alho.
O mesmo acontece com estilos musicais, comportamentos, opiniões e preferências políticas.
As plataformas identificam nossos interesses e tendem a oferecer conteúdos semelhantes àqueles com os quais interagimos. Embora esse funcionamento não seja absoluto, ele pode favorecer a formação das chamadas bolhas informacionais.
E é justamente aí que mora o perigo.
O uso intenso dessas plataformas favoreceu a criação de ambientes nos quais as pessoas encontram, repetidamente, opiniões que confirmam suas próprias convicções. São as chamadas câmaras de eco, espaços onde determinadas ideias são reproduzidas e reforçadas, enquanto pensamentos divergentes perdem espaço.
Nesse ambiente, a desinformação encontra terreno fértil. Conteúdos sensacionalistas, discursos radicais e provocações políticas podem alcançar enorme repercussão porque despertam emoções e estimulam o engajamento.
Estamos vivendo essa realidade.
Em pleno 2026, parece que voltamos às antigas apresentações de jograis, nas quais cada participante repetia sua parte em uma sequência de vozes. A diferença é que, agora, cada grupo escuta, reproduz e reverbera aquilo em que já acredita.
Pouco se questiona. Muito se compartilha.
E, quando alguém apresenta uma opinião diferente, deixa de ser apenas um interlocutor para se transformar, aos olhos de alguns, em adversário ou até inimigo.
Não pretendo aqui atribuir juízo de valor a uma corrente política ou a outra. Minha preocupação é com as consequências dessa radicalização, especialmente quando as divergências ultrapassam os limites do debate e chegam à violência.
O Brasil já registrou episódios de violência associados à intolerância política, inclusive assassinatos.
Um dos casos de maior repercussão foi o de Marcelo Arruda, guarda municipal e tesoureiro do Partido dos Trabalhadores (PT), assassinado na madrugada de 10 de julho de 2022, em Foz do Iguaçu, no Paraná.
Marcelo comemorava seu aniversário de 50 anos em uma festa decorada com referências ao PT e às suas convicções políticas. Durante a celebração, um homem identificado com o bolsonarismo entrou em confronto com o aniversariante e efetuou disparos que provocaram sua morte.
Uma comemoração familiar terminou em tragédia.
E esse é apenas um dos exemplos mais extremos.
Existem também as amizades desfeitas, os laços familiares rompidos, os grupos de WhatsApp transformados em campos de batalha e aquele ressentimento permanente de um lado contra o outro.
Um cenário triste para uma sociedade que deveria compreender a diferença como parte natural da democracia.
O mais preocupante é perceber que, enquanto acreditamos estar cada vez mais conectados, podemos estar nos tornando cada vez mais isolados em nossas próprias convicções.
As redes sociais não inventaram a intolerância, tampouco são as únicas responsáveis pela polarização política. Entretanto, seus mecanismos de recomendação podem intensificar divisões já existentes, especialmente quando privilegiamos apenas aquilo que confirma nossa visão de mundo.
Afinal, de que adianta ter acesso a milhões de pessoas se escolhemos ouvir somente aquelas que pensam exatamente como nós?
O debate político não deveria ser uma partida de Ba-Vi, na qual a derrota do adversário importa mais do que o futuro coletivo.
Na democracia, pensar diferente não pode ser motivo para romper amizades, destruir famílias ou, muito menos, tirar a vida de alguém.
Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja escolher de que lado estamos, mas aprender a enxergar o que existe além dele.
Porque, enquanto cada um defender apenas a sua bolha, o Brasil continuará perdendo a capacidade de conversar consigo mesmo.

