Sérgio Dias e Ney Araújo: duas vozes, uma saudade que o Subúrbio nunca esqueceu
Entre dedicatórias, canções de amor e radinhos ligados, os dois comunicadores marcaram a vida de gerações de suburbanas.
Em tempos de opiniões divididas — Bahia ou Vitória, político A ou político B —, o Soterosuburbano traz à tona uma unanimidade que tem voz, música e memória afetiva: Sérgio Dias e Ney Araújo.
Nas décadas de 1980, 1990 e 2000, as noites do Subúrbio Ferroviário tinham uma trilha sonora especial. Depois da novela das oito, quando a televisão perdia espaço e o silêncio começava a tomar conta das casas, bastava ligar o rádio. Em muitas delas, a companhia da madrugada vinha de duas frequências inesquecíveis: 94,3 MHz ou 97,5 MHz. Piatã ou Itapuã.
Do outro lado, duas vozes pareciam conversar com cada ouvinte em particular.
Sérgio Dias e Ney Araújo embalaram namoros, aliviaram saudades e fizeram companhia a quem atravessava a noite acordado. Estavam com os trabalhadores da madrugada, com quem seguia para o Polo Petroquímico, com os adolescentes descobrindo o primeiro amor e com os solitários que encontravam, naquele radinho, uma presença amiga.
Havia sempre alguém esperando uma música. Ou torcendo para ouvir o próprio nome.
Naquele tempo, uma ligação telefônica pesava no bolso. A internet ainda não fazia parte do cotidiano, e WhatsApp nem existia. Para muita gente, era pelas ondas do rádio que o amor encontrava um caminho.
E a dedicatória vinha com endereço afetivo: de alguém do Lobato para alguém de Periperi; de um apaixonado de Plataforma para uma pessoa especial em Paripe. O nome do bairro anunciado dava aquela sensação boa de reconhecimento: era a nossa gente fazendo parte da programação.
Depois, começava a música do casal.
Por alguns minutos, a distância entre dois bairros parecia desaparecer. Quem mandava a mensagem ficava imaginando se a pessoa estava ouvindo. Quem recebia talvez aumentasse o volume, sorrisse sem perceber ou deixasse escapar uma lágrima. E havia quem não tivesse coragem de se declarar, mas escutasse a canção inteira pensando em alguém.
Quantas histórias de amor do Subúrbio não guardam, até hoje, uma dedicatória dessas?
Canções internacionais, clássicos românticos e mensagens apaixonadas atravessavam a madrugada. Às vezes, a gente nem entendia toda a letra, mas sabia exatamente de quem aquela música fazia lembrar.
Sérgio Dias, com o memorável Momentos de Amor, ainda está no ar, em mesmo horário e emissora, e Ney Araújo, trocou o inesquecível Programa Relax pelo Programa de Amor, agora na rádio Baiana FM, os dois tornaram-se parte dessas lembranças. Vozes que o tempo pode até deixar mais distantes na rotina, mas que a memória reconhece nos primeiros segundos.
Basta ouvir um timbre conhecido ou os primeiros acordes de uma canção para voltar àquele quarto, àquela janela, à viagem para o trabalho, ao radinho perto da cama. E lembrar de quem a gente era — e de quem a gente amava.
E você, leitor do Soterosuburbano, lembrou de alguém?
Compartilhe esta matéria com aquela pessoa que recebeu sua mensagem na madrugada. Ou com quem nunca soube que, enquanto aquela música tocava, era nela que você pensava.
Talvez vocês tenham escutado a mesma canção, na mesma noite, sentindo a mesma saudade.

